sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O BETO: VARIEDADE DE ESTILOS #1






Há gente que gosta de usar o termo “beto” como ofensa. Mas tenho um amigo peitudo do râguebi que gosta de mandar este grito de guerra: “Beto que é beto tem orgulho!”

Das minhas três parceiras de estimação, pelo menos duas, a Patrícia e a Mariana, são betas chapadas de acordo com essa classificação básica. Mas isso não diz nada sobre elas. É que as duas, podendo passar por “betas” na terminologia tradicional, mesmo assim têm estilos completamente diferentes.

Portanto, não há só um género de betice. Para começar, há dois grandes géneros: a betice de berço e a betice de lifestyle.

O beto de berço está para o beto de lifestyle tal como o rico está para o novo-rico. Estes quatro grupos não coincidem exactamente. Há betos de berço que não têm um tostão. E, como eles próprios diriam: “Isso é óptimo” (nunca na vida escreverão “ótimo”).

“Isso abre portas”, dizem eles, apesar de geralmente já terem as portas todas abertas. Não vale a pena perguntar-lhes que lógica é que há em ser-se uma pessoa normal sem dinheiro e isso abrir portas. É só uma coisa que gostam de dizer.

Muitas vezes não têm dinheiro porque nem sequer precisam disso. Em família há sempre alguém que paga, e o beto de berço está sempre em família.

Mas o beto de berço pode mesmo não ter dinheiro nenhum, apesar de viver com conforto. Além disso, o beto é um íman para a borla. Há qualquer coisa no beto que fareja a borla à distância, como o tubarão cheira o sangue a quilómetros. E quem quer dar coisas inacreditáveis de boas adora dar ao beto. O beto tem cara de que merece. O beto de berço, claro. O beto de lifestyle acha que a má cara é sinal de confiança.

Outros betos de berço têm um recurso fabulosamente excitante: o cartão de crédito da avó ou do avô. Um cartão dos pais violava a ideia de “independência”. Não gostam de dinheiro porque “estraga as calças”, um modo delicado de dizerem que a carteira cheia magoa o rabinho ao sentar. Também não gostam de tirar a carteira do bolso, e muito menos atirá-la para cima das mesas como fazem os betos de lifestyle a toda a hora.

Há betos de berço giríssimos que não têm carteira. Em vez disso trazem um pião: “Encontrei isto. Era do meu avô.” E acham realmente que a sedução pode começar por aí, o que vendo bem acaba por ser melhor do que imensas soluções pegajosas do macho vulgar. Ou então: “A minha avó deu-me este livro. Estou a aprender imenso sobre a mente feminina.” Ou ainda: “A minha mãe tem vergonha de ter guardado esta revista da minha avó. É sobre as princesas do Mónaco quando eram pequenas. Tinham este cavalinho, está(s) a ver? Tive um igual!” As princesas do quê? O que é que eu digo sobre o teu cavalinho?

Há betos de berço que largam de casa e nunca mais agem de acordo com a espécie. Passam totalmente despercebidos e fazem por isso. Raramente se dão a conhecer por gestos descuidados como segurar num hambúrguer com o guardanapo, ou perguntar o “nome de família” de uma maluca qualquer.

Mas estou só a falar deles. Isto dava um livro. Próximo capítulo: elas. Elas são diferentes: têm estilos. Podem ser animais completamente diferentes, reconhecendo-se mutuamente como betas.



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