domingo, 21 de setembro de 2014

CONVERSA DE MERCEARIA



Liga-me a Patrícia.
“Vamos a um sítio onde eu possa ter calma, onde eu possa comer coisinhas muito boas – já disse com calma? – onde se for preciso eu possa deitar uma lagrimazinha no teu teu ombro, ou no teu lenço, pronto, sem muita gente à volta.”
Propus-lhe a Mercearia do Século, um dos restaurantes mais pequeninos e mimosos de Lisboa e minha descoberta deste verão. Tentei saber mais sobre aquela urgência.
 “O que é que havia de ser? O verão, mais o cliché da ida ao mar com bandeira vermelha, não sei se estás a ver.”

“Estou a ver. Então e o...?”
“Não faças perguntas estúpidas antes de chegarmos ao restaurante. Mas sim, a questão é muito simples. O que é que uma mulher faz quando se manda ao mar de propósito e chegam dois nadadores-salvadores ao mesmo tempo?”
“Mas um já lá estava, não?”
“Eu disse chegam. E estou a falar de nadadores-salvadores, não estou a falar do capitão do Porto Seguro.”

Combinámos no cedro do jardim do Príncipe Real. O aroma deste gigante verde foi o primeiro medicamento para o stress da amiga. Sem conversa apressada. Depois foi só atravessarmos da esquina do jardim para o princípio da descida da Rua do Século. A Mercearia fica logo ao cimo, a seguir a uma meia-esquina. Nesse cantinho do passeio fica a mini-esplanada, com uma mesa sozinha e com as ementas escritas a giz.




Diga-se que, ao almoço, uma sopa com um prato do dia mais um sumo fresco do dia custavam uns caseiros 8,90€.

As sopas da foto são a minha Sopa de Abóbora Com Caril, uma fineza habitual da casa, e a Vichyssoise que a Patrícia pediu... couve-flor, natas e perlimpimpim de cebolinho. 

Seguiram-se, pela mesma ordem, os Jaquinzinhos com Salada de Feijão-Frade e a Salada de Barriga de Atum. A apresentação dos peixinhos fritos sem serem misturados na aguada do feijão diz bem do cuidado e da limpeza do prato. A distinção dos sabores foi a primeira regra.



“A propósito de distinção de sabores...”, disse a Patrícia, quando comentei este pormenor. Consegui distraí-la com a minha descrição do veludo da sopa de abóbora, a que o caril dá um travo que sobe à cabeça devagarinho.
“A propósito de subir à cabeça devagarinho...”
Voltei a cortar: “Não preferes um prato mais apaladado? Que tal umas Bochechas de Porco com Migas de Broa, Couve e Morcela?” O que eu fui dizer.
“A propósito de bochechas de porco...”



Se uma amiga começa a andar à roda temos de ouvi-la. O truque é ouvir e depois despejar exemplos e conselhos ao calhas, que ela só ouve os que lhe interessam e fica confortada. É o mesmo truque das astrólogas.

A Mercearia foi o sítio ideal para ouvir o filme dos erros de verão da amiga. E para dar uma pausa à neura, valeram os queijos ou as conservas e doces tradicionais portugueses... um frasquinho de piri-piri artesanal, ou um frasco de mel com amêndoas, um azeite finíssimo ou um cabaz de fruta ou legumes da época muitíssimo bem escolhidos.



Quando chegou a altura do mini leite-creme tostado com uma fatia de pão-de-ló de laranja e chá de erva-príncipe, já a Patrícia estava sorrir e o verão arrumado que nem sardinha em lata com picante. Deixo aqui o teu pensamento do dia, minha querida:
 
“Saladas de verão são saladas de verão. Concentra-te no sabor, despacha a digestão!”




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Jumpsuit Nanning (Colecção antiga)

Colar Selected (Colecção antiga)
 

Mercearia do Século
Rua do Século, 145, Lisboa (ao Jardim do Príncipe Real).

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